Hidróxido de alumínio e cloridróxido: nomes parecidos, funções diferentes
Hidróxido de alumínio e cloridróxido de alumínio são substâncias diferentes com funções diferentes. O hidróxido de alumínio, Al(OH)3, é praticamente insolúvel em água e quimicamente estável: aparece como antiácido oral, carga, opacificante e adjuvante de vacina, e não tem ação antitranspirante. O cloridróxido de alumínio, de fórmula aproximada Al2(OH)5Cl, é um sal ácido e solúvel que, ao encontrar o suor no ducto da glândula écrina, hidrolisa e precipita ali dentro como gel, obstruindo o canal de forma temporária. A diferença decisiva é a solubilidade: só o sal solúvel consegue entrar dissolvido no ducto e formar o tampão lá dentro. Hidróxido de alumínio já é o produto final dessa reação e, aplicado pronto, fica na superfície.
Hidróxido de alumínio é insolúvel, e por isso não tampona nada
O hidróxido de alumínio tem fórmula Al(OH)3. É um pó branco, praticamente insolúvel em água em pH próximo do neutro, e quimicamente estável. Na indústria ele aparece como antiácido de uso oral, como carga e opacificante em cosméticos e tintas, como retardante de chama e como adjuvante em vacinas. Nenhuma dessas funções tem relação com transpiração.
A razão é física antes de ser química. Para reduzir suor, um sal de alumínio precisa chegar dissolvido dentro do ducto da glândula écrina, um canal com poucas dezenas de micrômetros de diâmetro, e só então precipitar ali dentro. O hidróxido de alumínio já está precipitado. Ele é o produto final da reação, não o reagente. Aplicado na pele, fica na superfície como pó ou dispersão, cobre, dá opacidade, absorve um pouco de umidade por contato, e para por aí.
A comparação é grosseira mas serve: entupir um cano exige empurrar algo fluido para dentro dele. Jogar cimento já curado na calçada não entope nada.
O cloridróxido é ácido e solúvel, e é isso que forma o tampão
O cloridróxido de alumínio, Aluminum Chlorohydrate no padrão INCI, tem fórmula aproximada Al2(OH)5Cl. Ao contrário do hidróxido, é muito solúvel em água. E em solução o alumínio não fica como íon isolado: ele se organiza em espécies poliméricas hidratadas, agregados com vários átomos de alumínio unidos por pontes de oxigênio e hidroxila. A mais estudada é o polímero de treze alumínios com estrutura do tipo Keggin, chamado de Al13 na literatura de tratamento de água, onde esses mesmos sais são usados como coagulantes.
Na pele o processo é o seguinte. A solução ácida do produto atinge a abertura do ducto écrino. Ali ela encontra suor, que tem pH mais alto e composição iônica diferente, e a hidrólise avança. O alumínio polimerizado cresce, perde solubilidade e precipita como gel dentro do canal, misturado a queratina e a proteínas do próprio suor. Esse tampão fica alojado na parte mais superficial do ducto e se desfaz junto com a renovação da camada córnea, ao longo de dias.
Repare no detalhe que fecha o raciocínio: o material do tampão é, quimicamente, hidróxido de alumínio. A diferença é o endereço. Ele precisa se formar lá dentro, e não ser aplicado pronto por fora.
Basicidade é o número que separa os sais dessa família
Todos os sais de alumínio usados em antitranspirante são da mesma linhagem, e o que muda entre eles é a proporção de hidroxilas para cloretos ligadas ao alumínio. Essa proporção é chamada de basicidade e costuma ser expressa em porcentagem.
- Cloreto de alumínio, AlCl3 ou o hexahidratado, tem basicidade zero. É o mais ácido, o
mais reativo e o que mais provoca ardência e irritação relatadas. É o sal típico das fórmulas manipuladas em concentrações altas.
- Dicloridróxido de alumínio fica em torno de 50% de basicidade.
- Sesquicloridróxido de alumínio fica em torno de 66%.
- Cloridróxido de alumínio fica em torno de 83%. É o mais usado em produtos de venda
livre.
- Tetraclorohidrex de alumínio e zircônio entra numa subfamília diferente: o zircônio
participa da rede polimérica e o sal costuma vir complexado com glicina, indicada no INCI pelo sufixo GLY. A glicina estabiliza o complexo e reduz a acidez livre.
A regra prática é direta: quanto maior a basicidade, menos ácido é o sal, menor a acidez que sobra na fórmula e menor o potencial de queimação. Isso não significa que basicidade alta seja sempre melhor, porque a eficácia depende também da concentração e da forma como o sal se comporta ao secar. Significa que comparar dois produtos só pela porcentagem, ignorando qual sal está declarado, não diz muita coisa.
Tabela: quem é quem no rótulo
| Nome no rótulo | Solúvel em água | Função real | Ação antitranspirante |
|---|---|---|---|
| Aluminum Hydroxide | Não | Carga, opacificante, estabilizante | Nenhuma |
| Aluminum Chloride | Sim | Sal muito ácido, manipulação | Sim, com maior risco de ardência |
| Aluminum Sesquichlorohydrate | Sim | Sal de basicidade intermediária | Sim |
| Aluminum Chlorohydrate | Sim | Sal padrão de venda livre | Sim |
| Aluminum Zirconium Tetrachlorohydrex GLY | Sim | Complexo com zircônio e glicina | Sim |
| Alumen, pedra de cristal | Pouco | Sulfato duplo de alumínio e potássio | Efeito antitranspirante fraco |
A coluna que resolve a dúvida é a primeira à direita. Se o composto não se dissolve, ele não chega ao ducto e não forma tampão, por mais alumínio que tenha no nome.
O que muda para quem tem pele sensível
Duas coisas costumam ser confundidas quando alguém diz que alumínio irrita.
A primeira é a acidez residual da fórmula. Sal de basicidade baixa deixa o produto mais ácido, e pH baixo em pele já lesada arde. Isso é real e explica boa parte da ardência com fórmulas manipuladas de cloreto de alumínio.
A segunda é alergia de contato, que é outra história. Sal de alumínio é um sensibilizante raro. Quando alguém tem dermatite de contato por desodorante, o culpado mais provável, em testes de contato, costuma ser fragrância, seguido de conservantes e de alguns emolientes. É por isso que trocar de marca mantendo perfume raramente resolve, enquanto tirar o perfume resolve com frequência.
Há ainda um terceiro fator que não é da fórmula: o estado da pele no momento da aplicação. Pele recém depilada, com microcortes, macerada por suor ou com fissura tem barreira aberta. Qualquer coisa arde ali, inclusive água salgada.
Erros comuns na leitura do rótulo
- Achar que "sem cloridróxido" quer dizer sem alumínio. Pode ser outro sal de alumínio,
com outro nome INCI, na mesma função.
- Ver Aluminum Hydroxide e concluir que o produto é antitranspirante. Não é ativo, é
auxiliar de formulação.
- Comparar porcentagens de sais diferentes como se fossem a mesma escala.
- Confundir alumínio com alúmen. A pedra de cristal é sulfato duplo de alumínio e
potássio, ou seja, também contém alumínio, apesar de ser vendida como alternativa natural.
- Traduzir zircônio por "metal pesado perigoso". Zircônio não é metal pesado tóxico
nesse contexto, e em produto de venda livre a legislação restringe seu uso a formulações sem aerossol.
- Ignorar a ordem dos ingredientes. Em cosmético, ingredientes acima de 1% aparecem em
ordem decrescente de concentração, e isso diz mais do que qualquer alegação da frente da embalagem.
Quando procurar médico
- ardência ou queimação que persiste depois de suspender o produto por alguns dias
- vermelhidão com descamação, fissura ou bolha na dobra
- coceira que aparece sempre com o mesmo produto, indicando possível alergia de contato
que se confirma com teste de contato
- suor que continua limitando a vida mesmo com antitranspirante de alta concentração
usado corretamente
- suor que começou de repente, à noite, ou acompanhado de febre e perda de peso
- lesão, ferida ou pele em carne viva na axila, situação em que nenhum antitranspirante
deve ser aplicado
Nome parecido não é sinônimo, e essa é a lição prática do assunto. O alumínio insolúvel do antiácido e o alumínio solúvel do antitranspirante têm o mesmo elemento no centro e comportamentos opostos na pele. Ler o nome INCI completo, e não só a palavra alumínio, é o que separa uma escolha informada de um palpite.
Vale lembrar o limite do que um cosmético faz. Antitranspirante reduz suor e umidade, e isso já muda bastante o dia de quem transpira muito. Não trata doença, não substitui avaliação dermatológica e não é a resposta para todo caso de suor excessivo.
Perguntas frequentes
Hidróxido de alumínio no rótulo reduz suor?
Não. Hidróxido de alumínio é insolúvel e não entra dissolvido no ducto da glândula, então não forma o tampão que reduz a saída de suor. Quando ele aparece em um cosmético, costuma estar ali como carga, opacificante ou estabilizante, não como ativo antitranspirante.
Cloridróxido de alumínio e clorohidrato de alumínio são a mesma coisa?
Sim, são dois nomes para o mesmo composto, Aluminum Chlorohydrate no padrão INCI. Cloridrato, cloridróxido e clorohidrato circulam como sinônimos em rótulos e textos em português, o que gera boa parte da confusão.
O que significa basicidade de um sal de alumínio?
É a proporção entre hidroxilas e cloretos ligados ao alumínio, expressa em porcentagem. Quanto maior a basicidade, menos ácido é o sal e menos ácida fica a fórmula. Cloreto de alumínio tem basicidade zero e é o mais agressivo da família.
Por que o antitranspirante precisa ser ácido?
Porque o sal de alumínio só permanece solúvel em pH baixo. Se a fórmula for neutralizada, o alumínio precipita ainda no pote e o produto perde a capacidade de formar o tampão dentro do ducto.
Sal de alumínio é absorvido pelo corpo?
A absorção pela pele íntegra é muito baixa nos estudos disponíveis e bem menor do que a de alumínio ingerido em alimentos e medicamentos. Ainda assim, aplicar em pele lesada ou recém depilada aumenta a passagem de qualquer substância e não é recomendado.
Qual sal de alumínio irrita menos?
De modo geral, quanto maior a basicidade, menor a acidez residual e menor o potencial de ardência. Cloreto de alumínio hexahidratado, muito usado em manipulação, é o mais ácido e o que mais causa queimação relatada.
