Cloridróxido de alumínio: o antitranspirante mais comum do mercado
Cloridróxido de alumínio, listado no rótulo como Aluminum Chlorohydrate e conhecido pela sigla ACH, é o sal antitranspirante mais utilizado no mundo. Sua fórmula corresponde a duas partes de alumínio para uma de cloro, com hidroxilas ocupando as demais posições, o que o torna um sal básico e bem menos ácido que os sais de alumínio antigos. Aplicado na pele, ele encontra o suor no início do ducto da glândula écrina, sofre hidrólise e se agrega em um gel de hidróxido de alumínio que forma um tampão físico no primeiro trecho do canal. O suor daquela glândula deixa de chegar à superfície enquanto o tampão existir. Ele é removido naturalmente pela descamação da pele, o que explica a necessidade de reaplicação.
O que a fórmula química diz sobre o comportamento do sal
Cloridróxido de alumínio é escrito como uma família de compostos com composição próxima de duas partes de alumínio, cinco hidroxilas e um cloro, mais água de hidratação. A relação que interessa é a de alumínio para cloro, que aqui é de dois para um.
Essa razão define o que os químicos chamam de basicidade do sal. Um cloreto de alumínio comum tem três cloros para cada alumínio e nenhuma hidroxila: em água, ele hidrolisa liberando ácido clorídrico e o pH despenca. Já o cloridróxido chega à pele com boa parte das posições de coordenação já ocupadas por hidroxila, ou seja, parcialmente neutralizado de fábrica. Uma solução de ACH tem pH em torno de quatro, próximo do pH natural da superfície da pele.
Isso não é detalhe de laboratório. É a razão pela qual o ACH substituiu os sais antigos no mercado de consumo: ele entrega o mesmo alumínio sem entregar junto uma carga ácida que queima a pele e destrói o tecido da camisa.
Um segundo aspecto da química importa tanto quanto: em solução, o alumínio não existe como íon isolado. Ele forma polímeros, agregados de vários átomos de alumínio ligados por pontes de oxigênio e hidroxila. Uma solução de ACH é uma mistura de espécies de tamanhos diferentes, e a proporção entre elas influencia o desempenho. É desse ponto que nasce a conversa sobre alumínio ativado.
Como o tampão se forma no ducto
A glândula écrina é um tubo enrolado na derme que sobe até a superfície. O trecho final, que atravessa a epiderme, chama-se acrossiríngio. É ali que a ação acontece.
O produto aplicado fica sobre a pele. Quando a glândula libera suor, o sal encontra um ambiente diferente do da embalagem: mais diluído, com pH mais alto e cheio de eletrólitos e proteínas. Nesse ambiente, o alumínio hidrolisa e precipita como um gel de hidróxido de alumínio, que se agrega às proteínas presentes no próprio suor.
Esse gel se deposita nos primeiros décimos de milímetro do canal e forma uma rolha. A pressão do suor empurra, o gel resiste, e o fluxo daquela glândula é interrompido. É bloqueio mecânico, não desligamento nervoso: a glândula continua funcionando normalmente, o suor apenas não chega à superfície e é reabsorvido.
Duas consequências práticas seguem daí.
A primeira é que o tampão não sai no banho. Ele está dentro do canal, ancorado à parede, e resiste a água e sabão. O que o remove é a descamação natural: a epiderme se renova, as células levam o tampão embora e o canal reabre. Isso leva dias, não horas.
A segunda é que a proteção é cumulativa. Aplicações sucessivas alcançam glândulas que não estavam ativas na aplicação anterior e reforçam os tampões existentes. Por isso o resultado da segunda semana de uso costuma ser melhor que o do primeiro dia, e por isso interromper por vários dias faz o efeito diminuir gradualmente em vez de sumir de uma vez.
Onde o ACH é usado e em que concentração
O ACH domina a categoria por uma soma de razões: custo baixo, boa solubilidade, compatibilidade com quase qualquer veículo e tolerância cutânea razoável.
Ele aparece em aerossol, roll-on, creme e stick. Em aerossol, entra como pó anidro disperso em fase oleosa, o que preserva melhor a distribuição de espécies poliméricas. Em roll-on e creme, entra em solução aquosa, situação em que a distribuição tende a mudar com o tempo de estocagem.
Na monografia de produtos de venda livre dos Estados Unidos, que serve de referência internacional na formulação, o cloridróxido de alumínio é permitido até 25% calculado na base anidra. Os sais de alumínio e zircônio têm limite mais baixo naquela mesma referência, em 20%. No Brasil, produtos antitranspirantes são regulados pela ANVISA e a classificação depende da alegação declarada, com exigência de comprovação de eficácia para a alegação de redução de suor.
Comparação entre os sais mais usados
| Sal (nome INCI) | Relação alumínio e cloro | Acidez em solução | Onde aparece | Observação prática |
|---|---|---|---|---|
| Aluminum Chlorohydrate | 2 para 1 | Baixa, pH perto de 4 | Aerossol, roll-on, creme, stick | O padrão do mercado |
| Aluminum Sesquichlorohydrate | 1,33 para 1 | Um pouco maior | Aerossol e roll-on | Mais cloro por alumínio |
| Aluminum Dichlorohydrate | 1 para 1 | Maior ainda | Uso restrito | Menos tolerado |
| Aluminum Zirconium Tetrachlorohydrex GLY | Complexo com zircônio e glicina | Baixa | Creme e stick de alta proteção | Base dos produtos clinical |
| Aluminum Chloride | 1 para 3, sem hidroxila | Alta, muito ácido | Fórmulas manipuladas | Eficaz e irritante |
| Potassium Alum | Sulfato duplo | Moderada | Pedra de cristal | Ação antitranspirante fraca |
A coluna que resolve a dúvida de quem lê é a terceira. Quase toda a diferença de ardência entre sais de alumínio se explica pela acidez que eles geram ao encontrar a umidade da pele, e não por alguma toxicidade particular de um ou de outro.
Erros comuns
- Aplicar em pele molhada. Diluição excessiva no momento da aplicação faz o sal precipitar antes de alcançar o ducto. Pele seca é condição do mecanismo, não preciosismo.
- Aplicar logo depois de depilar. A barreira está aberta e o contato com um sal ácido em microlesão é a origem mais frequente de ardência atribuída injustamente ao alumínio.
- Usar camada grossa achando que protege mais. O que age é o pouco produto que fica em contato com a saída da glândula. O excesso vira resíduo branco na roupa.
- Trocar de produto a cada dois dias. Como o efeito é cumulativo, avaliar um antitranspirante no primeiro dia é avaliar a pior versão dele.
- Achar que o banho zera a proteção. O tampão está dentro do canal. Ele resiste a água, e é por isso que a proteção não desaparece após um banho.
- Confundir cloridróxido com cloreto. São compostos diferentes, com acidez muito diferente, e a confusão alimenta a fama de que todo antitranspirante arde.
Quando procurar médico
- ardência, vermelhidão ou coceira que persistem após interromper o produto por alguns dias
- descamação, fissura ou pele repuxando na dobra de forma recorrente
- caroço, nódulo doloroso ou lesão que drena secreção na axila, que não é reação a cosmético
- suor que encharca a roupa a ponto de atrapalhar trabalho e vida social, mesmo com antitranspirante bem usado
- suor generalizado que começou de repente na vida adulta, acompanhado de perda de peso, febre ou suor noturno
- manchas escuras que crescem e vêm com pele espessada, que pedem avaliação e não cosmético
O cloridróxido de alumínio é a solução industrial mais bem resolvida da categoria: barato, estável, compatível com quase tudo e razoavelmente tolerado. Isso explica por que ele está na maioria absoluta dos produtos vendidos.
Dito isso, ele não é a única escolha nem sempre a melhor para cada pessoa. Quem sua acima da média costuma precisar de concentração maior ou de um complexo de alumínio e zircônio. Quem tem pele reativa costuma descobrir que o problema nunca foi o sal, e sim o perfume e o álcool que acompanhavam.
Separar essas duas variáveis, a força do ativo e a agressividade do veículo, é a decisão mais útil que se pode tomar na hora de escolher.
Perguntas frequentes
Cloridróxido de alumínio é a mesma coisa que cloreto de alumínio?
Não. Cloreto de alumínio tem três cloros para cada alumínio, é fortemente ácido em água e irrita bastante. O cloridróxido tem apenas um cloro para cada dois alumínios e hidroxilas nas demais posições, o que o deixa muito menos ácido e é a razão de ele ter substituído o cloreto no mercado de consumo.
Quanto tempo dura o tampão formado no ducto?
O tampão fica no primeiro trecho do canal e é eliminado junto com a renovação natural das células da superfície da pele. Na prática isso significa dias, não horas, e é por isso que o efeito de um antitranspirante tende a se acumular com o uso regular em vez de zerar a cada banho.
ACH mancha a roupa?
A mancha amarela na camisa vem da reação entre o alumínio, as proteínas do suor e o resíduo do produto, fixada pelo calor da lavagem e do ferro. Nenhum sal de alumínio está livre disso, mas aplicar camada fina, esperar secar e lavar a peça logo reduz bastante o problema.
Existe antitranspirante sem alumínio que funcione igual?
Não com o mesmo mecanismo. Sem um sal metálico que forme tampão no ducto, o produto pode mascarar odor, absorver umidade ou reduzir bactérias, mas não diminui a quantidade de suor produzida. São categorias diferentes e servem a objetivos diferentes.
ACH serve para quem sua muito?
Serve como ponto de partida, e é o sal presente na maioria dos produtos de prateleira. Para suor mais intenso, as formulações costumam recorrer a concentração maior ou a sais de alumínio e zircônio, que são a base dos produtos posicionados como clinical.
Onde o ACH aparece no rótulo?
Na lista de ingredientes em nomenclatura INCI, como Aluminum Chlorohydrate. A ordem da lista segue concentração decrescente até 1%, então um sal antitranspirante costuma aparecer entre os primeiros itens.
