Vôlei de praia: sol, areia e sal na pele
No vôlei de praia a pele sofre três agressões que se somam. A areia é mineral, formada em boa parte por grãos de quartzo com arestas, e ela adere à pele úmida de suor; a cada movimento do braço esses grãos raspam a superfície e removem parte da camada córnea, funcionando como uma esfoliação mecânica involuntária. O sal, do mar e do próprio suor, cristaliza sobre a pele e atrai água, o que resseca a superfície e arde onde já existe microlesão. E a radiação ultravioleta chega tanto direta quanto refletida pela areia clara, aumentando a dose recebida. O resultado é uma barreira cutânea fragilizada, que reage a produtos que em outro dia seriam bem tolerados.
Areia é abrasivo, e ela adere ao suor
Areia de praia é material mineral. A fração dominante costuma ser quartzo, com dureza alta e grãos que, dependendo da praia, ainda têm arestas em vez de superfície arredondada. Existe também fração de conchas trituradas e de outros minerais, com formatos irregulares.
Quando a pele está seca, o grão não gruda direito e cai. Quando está úmida de suor ou de água do mar, o líquido faz ponte entre o grão e a pele e ele fica ali.
O que acontece a seguir é mecânica simples: cada movimento de braço, cada queda, cada deslizada para defender coloca esses grãos em movimento contra a superfície. Eles removem corneócitos. É exatamente o princípio de um esfoliante granulado, com a diferença de que ninguém escolheu a granulometria, ninguém controlou a pressão e a sessão dura duas horas.
A axila é atingida de um jeito particular. A areia que sobe com o salto e a que fica presa na cava da regata acabam retidas na dobra, onde a pele é mais fina e onde há contato pele contra pele o tempo todo.
O sal continua trabalhando depois que você sai da quadra
Quando a água evapora, o cloreto de sódio fica. Ele vem de duas fontes: do mar, se você entrou na água, e do seu próprio suor, que em taxa alta sai mais salgado.
Sal cristalizado é higroscópico. Enquanto estiver sobre a pele, ele atrai água da camada superficial. Isso produz uma sensação de repuxamento e, em pele que já perdeu parte da camada córnea para a areia, produz ardência real, porque a barreira que separava as terminações nervosas do ambiente está mais fina.
A ordem em que as coisas acontecem importa mais do que parece. Enxaguar com água doce enquanto ainda há areia sobre a pele empurra os grãos e raspa. Secar com toalha antes de tirar a areia é passar lixa. A sequência que poupa a pele é retirar o grosso a seco, depois enxaguar com água corrente sem esfregar, e por último secar dando toques.
O sol que vem de cima e o que volta da areia
Areia clara e água refletem uma parte da radiação ultravioleta. Isso significa que quem joga na praia recebe dose direta mais dose refletida, inclusive em áreas que estariam na sombra do próprio corpo, como a face inferior do queixo e o dorso do braço.
Pele com queimadura solar tem barreira comprometida no corpo inteiro, não só na área vermelha, e responde de forma exagerada a produtos que normalmente tolera. Por isso é comum alguém aplicar o desodorante de sempre na noite de um dia de praia e sentir ardência pela primeira vez.
Três coisas que se cruzam nesse ponto:
- A axila não precisa de protetor solar, porque não recebe sol direto, e protetor na dobra
soma oclusão e resíduo.
- Não aplique antitranspirante em pele queimada de sol ou em pele que ficou vermelha de
abrasão de areia. Espere a barreira se recuperar.
- Reaplicar protetor no corpo é obrigatório em jogo com suor e mergulho, porque suor e
água removem o filme.
O que rende em cada momento do dia de praia
| Momento | O que rende | O que atrapalha |
|---|---|---|
| Noite anterior | Antitranspirante em pele seca, sem depilar | Depilar com lâmina na véspera |
| Antes do jogo | Protetor no corpo exposto, boné, hidratação | Protetor solar na axila |
| Durante | Sombra nas pausas, água, camiseta seca à mão | Lenço com álcool na dobra |
| Ao sair da areia | Retirar areia a seco, sem toalha ainda | Esfregar toalha sobre pele com areia |
| Enxágue | Água doce corrente, sem esfregar | Banho muito quente com bucha |
| Depois do banho | Secar dando toques, hidratante sem fragrância | Produto perfumado ou com álcool na axila |
Erros comuns no vôlei de praia
- Esfregar a toalha com areia ainda na pele. É a causa isolada mais frequente de axila
esfolada na volta da praia.
- Depilar no dia do jogo. Microlesão nova mais areia, sal e sol é combinação que arde por
dias.
- Banho muito quente para "tirar o sal". Água quente remove lipídios da barreira, que já
está desfalcada.
- Sabonete perfumado ou antibacteriano na dobra depois da praia.
- Aplicar ácido ou esfoliante na axila no mesmo dia, achando que ajuda a uniformizar a
cor. A pele já foi esfoliada pela areia, sem que ninguém pedisse.
- Deixar a roupa de jogo úmida com areia dentro da mochila. Ela volta com areia
incrustada, que raspa no jogo seguinte.
- Usar desodorante em aerossol logo depois do sol. A maioria contém álcool, que arde em
barreira comprometida.
Quando procurar médico
Procure avaliação médica se aparecer:
- queimadura solar com bolhas, febre ou calafrio, que caracteriza queimadura de segundo
grau e não é para tratar em casa
- pele rompida com pus, crosta amarelada ou vermelhidão que se espalha, sugerindo infecção
- feridas de abrasão que não fecham em cerca de uma semana
- manchas que persistem ou mudam de aspecto após exposição solar repetida
- lesão de pele nova em quem se expõe muito ao sol, principalmente pinta que cresce, muda
de cor ou sangra
- coceira, vermelhidão ou descamação na dobra que dura mais de duas semanas
Um antitranspirante reduz suor e umidade na axila. Ele não protege do sol, não neutraliza o sal e não repõe a camada córnea que a areia levou.
O que vale reter é a ordem das prioridades num dia de praia com jogo: proteger do sol, tirar a areia sem esfregar, enxaguar o sal, secar com cuidado e só então pensar em qualquer produto. Uma barreira íntegra tolera bem o que uma barreira raspada não tolera, e boa parte do que se atribui a "pele sensível" na volta da praia é apenas isso.
Perguntas frequentes
Posso passar antitranspirante antes de jogar na praia?
O momento que rende é a noite anterior, sobre pele bem seca. Aplicar antes de entrar na areia costuma render pouco, porque o produto é diluído pelo suor e pela água, e a pele ainda vai receber abrasão de areia por cima.
Preciso passar protetor solar na axila?
A axila praticamente não recebe sol direto, então não é uma área que peça protetor. Passar protetor ali costuma trazer mais oclusão e resíduo do que benefício. Ombro, nuca e dorso do braço é que precisam.
Água do mar faz bem para a pele?
Não há evidência boa de que a água do mar melhore a pele saudável. O que se sabe é que o sal que fica após a evaporação é higroscópico e resseca a superfície, e que em pele com lesão ele arde. Enxaguar com água doce depois é a conduta sensata.
Por que minha axila arde só depois do banho?
Porque a água quente remove os lipídios que sobraram da barreira já comprometida pela areia e pelo sal, e as terminações nervosas ficam mais expostas. Banho morno e curto, sem bucha e sem sabonete perfumado na dobra, reduz muito esse efeito.
Dá para tirar a areia sem esfregar?
Dá. Deixe secar e retire o grosso com a mão espalmada ou com talco simples, que reduz a aderência, e só então enxágue com água corrente. Esfregar toalha sobre pele com areia é literalmente passar lixa na axila.
Devo depilar antes de um dia de praia com jogo?
É melhor não. Lâmina remove parte da camada córnea e deixa microlesões, e areia, sal e sol sobre esse terreno multiplicam a ardência. Se for depilar, deixe pelo menos um dia de intervalo.
