Feocromocitoma: suor em crise, pressão e palpitação
Feocromocitoma é um tumor raro das células cromafins, quase sempre na medula da glândula adrenal, que produz e libera catecolaminas como adrenalina e noradrenalina de forma descontrolada e em pulsos. O suor aparece porque essas substâncias aumentam o metabolismo e a produção de calor no corpo e, ao mesmo tempo, fecham os vasos da pele, que é justamente a via normal de perder calor. O organismo esquenta por dentro e não consegue dissipar, então recorre à sudorese. A tríade clássica é dor de cabeça, sudorese intensa e palpitação, em crises que duram de minutos a uma hora e frequentemente vêm com pressão arterial muito alta. Entre as crises a pessoa pode estar completamente bem, e é isso que atrasa o diagnóstico.
O que o tumor produz e por que isso vira suor
As glândulas adrenais ficam sobre os rins e têm duas partes com funções distintas. A parte externa, o córtex, produz cortisol e aldosterona. A parte interna, a medula, é formada por células cromafins, que são células nervosas modificadas: elas fabricam adrenalina e noradrenalina e as despejam direto na corrente sanguínea. Na prática, a medula adrenal é uma extensão do sistema nervoso simpático que fala por via química em vez de por nervo.
Feocromocitoma é um tumor dessas células cromafins. Quando ele se forma, passa a produzir catecolaminas fora de qualquer regulação. O tumor não obedece a estímulo nem a freio: libera em pulsos, e é por isso que o quadro se manifesta em crises e não de forma contínua.
Existem também tumores da mesma linhagem celular fora da adrenal, ao longo da cadeia simpática do abdome e do tórax. São chamados paragangliomas e produzem quadro semelhante quando são funcionantes.
Por que catecolamina em excesso faz suar
A resposta óbvia seria dizer que a adrenalina ativa a glândula de suor. Isso é apenas parte da história e a parte menor.
As glândulas écrinas, responsáveis pelo suor aquoso do corpo, são inervadas por fibras simpáticas que liberam acetilcolina. Elas têm alguma resposta a estímulo adrenérgico, mas modesta. Se a adrenalina circulante fosse o único caminho, o suor de um feocromocitoma seria discreto, e não é.
O mecanismo principal é térmico e tem duas pontas.
Aumento de produção de calor. Catecolaminas se ligam a receptores beta em músculo, fígado e tecido adiposo, aceleram a quebra de glicogênio e a lipólise e elevam o consumo de oxigênio. Aumento de metabolismo significa aumento de produção de calor. O corpo esquenta por dentro.
Bloqueio da perda de calor. Ao mesmo tempo, o estímulo em receptores alfa contrai os vasos da pele. A pele é o radiador do corpo, e o radiador acabou de ser fechado. Menos sangue chegando à superfície significa menos calor irradiado para o ambiente.
Sobra um caminho para dissipar: a evaporação. O organismo sua porque o suor evaporando é a única via que continua aberta. Isso explica por que a crise costuma cursar com pele pálida e fria ao toque enquanto a pessoa está encharcada e com sensação intensa de calor interno. A palidez e o suor não são contraditórios: são consequências das duas metades do mesmo estímulo.
Como a crise se apresenta
O ensino clássico descreve uma tríade: dor de cabeça, sudorese e palpitação, geralmente sobre um fundo de hipertensão arterial. A dor de cabeça costuma ser pulsátil e forte. A palpitação vem com sensação de coração disparado e às vezes com dor no peito. A sudorese é profusa e generalizada, não localizada em axila.
Outros achados frequentes incluem palidez, tremor, ansiedade intensa com sensação de morte iminente, náusea, dor abdominal, visão embaçada e perda de peso ao longo do tempo apesar de apetite preservado.
O comportamento da pressão arterial é variável e essa variabilidade é característica. Parte das pessoas tem hipertensão sustentada, parte tem picos paroxísticos sobre pressão normal e parte alterna pressão muito alta com hipotensão postural, porque o leito vascular fica cronicamente contraído e o volume circulante, reduzido.
As crises duram de poucos minutos a cerca de uma hora, com frequência imprevisível: podem ser diárias ou espaçadas em meses. Certos estímulos são descritos como desencadeantes, entre eles esforço físico, manipulação do abdome, anestesia, alguns medicamentos e alimentos ricos em tiramina.
Suor de crise: o que aponta para cada causa
| Quadro | Como a pele fica | Marca registrada | Onde se confirma |
|---|---|---|---|
| Feocromocitoma | Pálida, fria, encharcada | Dor de cabeça pulsátil e pressão muito alta na crise | Metanefrinas no plasma ou na urina |
| Crise de pânico | Suor em mãos, axilas e face | Gatilho identificável, medo intenso, formigamento, hiperventilação | Avaliação clínica e psiquiátrica |
| Hipoglicemia | Pálida, fria, úmida | Fome súbita, tremor, confusão que melhora com açúcar | Glicemia medida durante o episódio |
| Hipertireoidismo | Quente, avermelhada, úmida | Intolerância ao calor contínua, perda de peso, tremor fino | Dosagem de TSH e hormônios tireoidianos |
| Fogacho da menopausa | Quente e avermelhada em face e tronco | Onda de calor que sobe, seguida de suor e depois calafrio | Contexto clínico e idade |
| Síndrome carcinoide | Avermelhada, geralmente seca | Rubor de face e pescoço com diarreia | Ácido 5 hidroxindolacético na urina |
A coluna que resolve a dúvida é a terceira. Suor em crise é comum a todas essas condições, e a diferenciação vem do que acompanha o suor, não da quantidade dele.
O que costuma atrasar o diagnóstico
Entre as crises, a pessoa pode estar perfeitamente bem. Chega ao pronto-socorro com pressão alta, é medicada, melhora e vai embora com o rótulo de crise hipertensiva ou de ansiedade. O episódio seguinte acontece semanas depois, muitas vezes em outro serviço, e ninguém junta os pontos.
Outro fator é a sobreposição com transtorno de pânico. Os dois quadros compartilham suor, tremor, taquicardia e sensação de morte iminente. A diferença que costuma chamar atenção é que no feocromocitoma a crise aparece sem gatilho emocional, vem com pressão muito elevada aferida no momento e cursa com palidez em vez do rubor comum na ansiedade.
Há ainda um caminho de descoberta que se tornou frequente: o achado incidental de um nódulo na adrenal em tomografia feita por outro motivo. Nem todo nódulo de adrenal é funcionante, e a avaliação hormonal é justamente o que separa um caso do outro.
Uma parcela relevante dos casos está ligada a mutações genéticas herdadas, associadas a síndromes já descritas. Isso mudou a conduta nas últimas décadas: hoje a avaliação genética faz parte da investigação em muitos serviços, com implicação direta para familiares.
Erros comuns
- Tratar sudorese em crise como hiperidrose de axila. Hiperidrose primária é localizada, simétrica, começa cedo na vida e não vem com pressão alta. Suor generalizado em crise pede outra investigação.
- Descartar a hipótese porque a pressão está normal na consulta. Em muitos casos a pressão só sobe durante o paroxismo. Um valor normal fora da crise não exclui nada.
- Fechar diagnóstico de ansiedade sem aferir a pressão durante o episódio. Esse é o dado mais barato e mais informativo do atendimento.
- Achar que suar muito é sempre inofensivo. É verdade na esmagadora maioria das vezes. A exceção é justamente o suor que muda de padrão na vida adulta e vem acompanhado de outros sintomas.
- Usar produto de axila esperando efeito sobre suor generalizado. Antitranspirante age em uma área de pele. Não interfere na produção de catecolaminas nem na termorregulação central.
Quando procurar médico
- crises de suor intenso com dor de cabeça forte e coração acelerado, sobretudo se aparecem sem gatilho emocional
- pressão arterial muito alta e instável, difícil de controlar mesmo com medicação
- suor que começou na vida adulta, é generalizado e não segue o padrão de calor ou esforço
- perda de peso sem intenção, acompanhada de tremor e ansiedade nova
- desmaio ou tontura ao levantar associados a episódios de pressão alta
- nódulo de adrenal encontrado por acaso em exame de imagem, situação que sempre pede avaliação hormonal
O que este artigo não faz é sugerir que suar muito seja motivo de alarme. A imensa maioria de quem sua acima da média tem hiperidrose primária, uma condição benigna, localizada e que responde a medidas simples, entre elas o antitranspirante de alta concentração como primeira linha.
O que muda o cenário é o padrão. Suor que vem em crise, atinge o corpo todo, aparece do nada na vida adulta e traz junto pressão alta, dor de cabeça e palpitação está descrevendo outra coisa. Nesses casos, procurar produto é olhar para a ponta errada do problema.
Feocromocitoma é raro. Ainda assim é uma das causas secundárias de sudorese que vale conhecer, porque tem investigação bem definida e tratamento estabelecido, e porque o custo de não pensar nele é alto.
Perguntas frequentes
Feocromocitoma é comum?
Não. É um tumor raro, encontrado em uma fração pequena das pessoas investigadas por hipertensão. Ainda assim é procurado com frequência porque tem tratamento e porque as crises podem ser perigosas quando passam despercebidas.
Como diferenciar de crise de ansiedade?
As duas dão suor, tremor e palpitação. O que costuma chamar atenção no feocromocitoma é a pressão arterial muito alta durante a crise, a dor de cabeça pulsátil forte, a palidez em vez de rubor e o fato de as crises surgirem sem gatilho emocional identificável. A separação definitiva é laboratorial.
Quais exames o médico costuma pedir?
A investigação bioquímica é feita pela dosagem de metanefrinas, os produtos da degradação das catecolaminas, no plasma ou na urina de vinte e quatro horas. Se vier alterada, segue exame de imagem do abdome para localizar o tumor. A indicação e a interpretação são do médico.
O feocromocitoma é hereditário?
Em parte dos casos sim. Uma proporção relevante está associada a mutações herdadas ligadas a síndromes genéticas conhecidas, o que torna a avaliação genética parte da conduta em muitos serviços e pode indicar rastreamento de familiares.
Tem cura?
Na maioria dos casos o tratamento é a retirada cirúrgica do tumor, precedida de preparo medicamentoso para evitar picos de pressão durante o procedimento. O acompanhamento posterior é longo, porque pode haver recidiva. Toda essa condução é médica.
Suar muito sozinho já é motivo para investigar?
Sudorese isolada, constante e desde a adolescência costuma ser hiperidrose primária, que é outra coisa. O que levanta suspeita de causa secundária é o suor que começa na vida adulta, vem em crises, atinge o corpo todo, acorda a pessoa à noite ou vem acompanhado de pressão alta e perda de peso.
