Alteração do olfato: quando você não confia mais no próprio nariz
Na covid, o vírus não destrói diretamente o neurônio olfatório. Ele infecta as células sustentaculares, que sustentam esse neurônio, controlam o equilíbrio iônico do muco e expressam em abundância os receptores ACE2 e TMPRSS2 usados pelo vírus para entrar. Sem esse suporte, e sob a inflamação local, o neurônio deixa de funcionar mesmo estando vivo, o que explica a perda súbita e completa do cheiro sem nariz entupido. Como as células basais do epitélio olfatório continuam se dividindo, a maioria das pessoas recupera em semanas. A parosmia, aquele cheiro distorcido e desagradável de café, carne ou cebola, costuma surgir depois, durante a regeneração, quando axônios novos se reconectam de forma imprecisa no bulbo olfatório.
Onde o vírus realmente age
O epitélio olfatório ocupa uma área pequena no teto da cavidade nasal, com poucos centímetros quadrados de cada lado. Ali convivem três tipos de célula que interessam aqui.
Os neurônios sensoriais olfatórios têm cílios mergulhados no muco, onde ficam as proteínas receptoras que se ligam às moléculas odorantes. O axônio de cada neurônio atravessa a lâmina crivosa do osso etmoide e chega ao bulbo olfatório, dentro do crânio.
As células sustentaculares cercam esses neurônios. Fazem manutenção: regulam a concentração de íons no muco, metabolizam substâncias potencialmente tóxicas, dão sustentação física e mantêm o ambiente em que a transdução do sinal acontece.
As células basais ficam no fundo do epitélio e funcionam como reserva. O epitélio olfatório é um dos poucos tecidos neurais humanos com capacidade de regeneração ao longo da vida, e é dessas células que saem neurônios novos.
O SARS-CoV-2 entra na célula pelo receptor ACE2, com auxílio da protease TMPRSS2. Estudos de expressão mostraram que essas duas proteínas são abundantes nas células sustentaculares e praticamente ausentes nos neurônios olfatórios. Ou seja, o vírus ataca a estrutura de apoio, não o sensor.
Isso explica dois fatos que pareciam estranhos no início da pandemia: a perda ser súbita e total, sem congestão nasal, e a recuperação ser frequente. Um neurônio que perdeu o suporte para de funcionar, mas continua vivo. Restabelecido o ambiente, o sinal volta.
Por que o cheiro volta errado
A parosmia costuma aparecer justamente quando as coisas estão melhorando, o que é contraintuitivo para quem a vive.
Cada neurônio olfatório expressa um único tipo de receptor, e todos os neurônios com aquele receptor convergem para um mesmo glomérulo no bulbo olfatório. O cérebro identifica um odor pelo padrão de glomérulos ativados, como um acorde. A precisão desse mapa é o que permite distinguir café de chocolate.
Quando o epitélio se regenera, neurônios novos precisam refazer o trajeto até o bulbo e encontrar o glomérulo correto. Parte deles erra o destino. O acorde chega ao cérebro com notas trocadas, e o cérebro interpreta como um odor diferente, geralmente desagradável.
Há também a explicação central complementar: com a entrada sensorial reduzida durante meses, o processamento no córtex piriforme e nas regiões associadas se reorganiza, e a leitura do padrão fica alterada mesmo quando a periferia se recupera.
Os gatilhos mais relatados formam uma lista curiosamente consistente: café, carne, cebola, alho, ovo, creme dental e produtos com fragrância. São odores com muitos compostos sulfurados e nitrogenados, exatamente o tipo de molécula que o sistema evoluiu para tratar como aviso de alimento estragado.
Existe uma hipótese razoável para essa preferência. Se a percepção fica incompleta, com parte dos glomérulos ativados e parte silenciosa, o padrão que chega ao cérebro fica parecido com o de compostos de degradação, que são detectados em concentrações mínimas justamente porque sinalizam perigo. O resultado é uma distorção enviesada para o desagradável.
A fantosmia, que é sentir um cheiro sem fonte nenhuma por perto, segue lógica parecida: atividade neural sem estímulo correspondente. Costuma ser descrita como cheiro de queimado, de fumaça ou de produto químico, aparece em episódios curtos e tende a diminuir com o tempo.
Vale registrar o impacto disso na alimentação. Quando os alimentos mais calóricos e proteicos são justamente os que se tornaram intoleráveis, a ingestão cai, e perda de peso durante a fase de parosmia é um desfecho frequente e subestimado.
Nomes das alterações, para conversar direito
| Termo | O que significa | Contexto típico |
|---|---|---|
| Anosmia | Ausência completa de olfato | Fase aguda pós-viral, trauma, obstrução |
| Hiposmia | Redução do olfato | Recuperação parcial, quadros crônicos |
| Parosmia | Odor real percebido de forma distorcida | Fase de regeneração pós-viral |
| Fantosmia | Odor percebido sem fonte externa | Pós-viral, causas neurológicas |
| Ageusia e disgeusia | Perda ou distorção do paladar | Quase sempre secundária ao olfato |
| Hiperosmia | Sensibilidade aumentada a odores | Gestação, enxaqueca, outras causas |
A quarta linha e a quinta merecem uma nota. O que se chama de gosto é, em boa parte, olfato retronasal: moléculas que sobem da boca para a região olfatória. A língua distingue doce, salgado, ácido, amargo e umami, e só. Quem perde o olfato descreve a comida como sem sabor, e não é impressão.
O que muda na rotina de higiene
O olfato é o instrumento pelo qual a maioria das pessoas decide se precisa reaplicar produto, trocar a camiseta ou tomar outro banho. Sem ele, a decisão perde o sensor.
O que costuma funcionar é substituir a percepção por regra.
- Fixar horário em vez de esperar sinal. Banho, troca de roupa e aplicação de produto seguem o relógio, não a sensação.
- Ter uma pessoa de confiança como referência, alguém a quem se possa perguntar direto e sem constrangimento.
- Padronizar a roupa. Camiseta usada vai para o cesto no mesmo dia, sem exceção, porque não dá para checar.
- Evitar aumentar o perfume. É o erro mais comum, e cria o problema oposto.
- Preferir produto sem fragrância na fase de parosmia, para não gerar um estímulo distorcido colado ao próprio corpo.
- Cuidar da segurança doméstica. Gás, comida estragada e fumaça deixam de ser detectáveis, e isso exige checagem por outros meios.
Erros que aparecem nessa fase
- Concluir que o olfato acabou logo nas primeiras semanas. A recuperação costuma ser lenta e não linear, com dias melhores e piores.
- Interpretar parosmia como piora. Em geral ela indica regeneração em curso, ainda que seja a fase mais desagradável do processo.
- Usar descongestionante nasal de uso contínuo por conta própria. Além de não agir sobre a causa, o uso prolongado de vasoconstritor tópico leva a congestão de rebote.
- Abandonar alimentos definitivamente. Alguns gatilhos voltam a ser tolerados depois, e a restrição alimentar prolongada tem custo nutricional.
- Cheirar substâncias fortes achando que isso treina. Treinamento olfativo usa odores conhecidos e concentração moderada, com atenção deliberada, e é orientado por profissional.
- Não mencionar o sintoma na consulta. Alteração de olfato persistente entra na avaliação médica e pode ter causa somada.
Quando procurar médico
- perda de olfato que persiste por mais de algumas semanas após o quadro agudo
- perda de olfato sem infecção prévia identificada, sobretudo se progressiva
- alteração de olfato após traumatismo craniano, mesmo leve
- obstrução nasal persistente, secreção purulenta ou sangramento associados
- fantosmia frequente ou desagradável, principalmente se acompanhada de sintomas neurológicos
- perda de peso decorrente da queda de apetite pela ausência de sabor
Não existe cosmético que devolva olfato, e vale dizer isso sem rodeio. O que um produto sem perfume oferece nesse período é bem menor e bem concreto: reduzir suor e umidade sem colocar uma fragrância que você não consegue avaliar, e que pode ser percebida de forma distorcida por você mesmo.
Enquanto o nariz não é confiável, a rotina previsível vale mais que qualquer produto. Horário fixo, troca de roupa sem negociação e alguém de confiança para dizer a verdade resolvem a maior parte da insegurança dessa fase.
Perguntas frequentes
Por que a perda de olfato na covid vem sem nariz entupido?
Porque a causa não é obstrução mecânica. O vírus atinge as células de suporte do epitélio olfatório, que mantêm o ambiente onde o neurônio funciona. Com esse suporte comprometido, o sinal deixa de ser gerado mesmo com o ar circulando normalmente pelo nariz.
O que é parosmia?
É a percepção distorcida de um odor real: café que cheira a queimado, carne que cheira a podre, cebola que fica insuportável. Costuma aparecer semanas ou meses depois da perda inicial e é interpretada como sinal de regeneração em curso, ainda que desagradável.
Quanto tempo demora para o olfato voltar?
A maior parte das pessoas recupera em semanas. Uma parcela menor leva meses e uma fração fica com alteração persistente. Perda que se mantém além de algumas semanas merece avaliação com otorrinolaringologista, entre outros motivos para excluir causas obstrutivas somadas.
Treinamento olfativo funciona?
É a intervenção com melhor suporte na literatura para perda pós-viral, ainda que o efeito seja modesto e variável. Consiste em cheirar de forma atenta um conjunto pequeno de odores conhecidos, duas vezes ao dia, por semanas seguidas. Quem orienta o protocolo é o médico.
Perfume ajuda quando não se sente o próprio cheiro?
Costuma atrapalhar. Sem referência olfativa, a tendência é aplicar cada vez mais, e outras pessoas sentem uma intensidade que você não percebe. Em fase de parosmia, o próprio perfume pode ser percebido de forma distorcida e desagradável.
Perda de olfato pode ter outras causas além de infecção viral?
Sim. Rinossinusite crônica, pólipos nasais, traumatismo craniano, uso de certas substâncias e algumas doenças neurológicas alteram o olfato. Por isso perda persistente não deve ser assumida como sequela viral sem avaliação.
