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Androstenona e androstenol: os esteroides do odor axilar

Publicado em 26 de agosto de 2026 · por Soffie Biocosméticos

Resposta direta

Androstenona e androstenol são esteroides voláteis da família dos 16-androstenos, presentes no odor axilar humano. Eles não são secretados prontos: a glândula apócrina libera precursores esteroides, entre eles formas sulfatadas de andrógenos, e bactérias da pele os convertem nos compostos com cheiro. Androstenona costuma ser descrita como urinosa e pungente. Androstenol tem descrição mais amadeirada e almiscarada. A percepção desses compostos varia muito entre pessoas por causa de variantes de um receptor olfativo específico: parte da população acha o cheiro desagradável, parte acha suave ou adocicado e uma fração simplesmente não o detecta. Apesar de serem chamados de feromônios em textos comerciais, não há evidência boa que sustente esse papel em seres humanos.

Esteroides que evaporam

A palavra esteroide costuma evocar hormônio, e é preciso separar as coisas logo no começo. Esteroide é uma classe química: quatro anéis de carbono fundidos em um arranjo específico. Colesterol é esteroide. Testosterona é esteroide. Cortisol também.

A maior parte deles é pesada demais para evaporar. Alguns, porém, são pequenos e apolares o bastante para passar à fase gasosa em quantidade suficiente para serem cheirados. Os 16-androstenos estão nesse grupo, e dois deles interessam ao odor axilar.

Androstenona. Descrição sensorial dominante: urinosa, pungente, suor concentrado.

Androstenol. Mesma estrutura básica, com um álcool no lugar da cetona. Descrição: almiscarada, amadeirada, algo próximo de sândalo.

A diferença entre as duas é o estado de oxidação de um único carbono. Um átomo de oxigênio a mais ou a menos, e a percepção muda de categoria. Isso ilustra bem como o olfato funciona por reconhecimento de forma, e não por classe de substância.

Como eles aparecem na pele

A glândula apócrina secreta esteroides, mas em formas que não cheiram. A principal delas é o sulfato de deidroepiandrosterona, um andrógeno conjugado com sulfato, que é solúvel em água e não volátil. Também são descritos precursores da família androstadienona ligados a proteínas da secreção.

O que acontece na superfície é conversão microbiana. Bactérias residentes, com destaque para os coriniformes, possuem enzimas capazes de remover o sulfato e de modificar o esqueleto esteroide, incluindo reações de redução e oxidação que geram androstenona e androstenol.

Esse é o mesmo padrão já descrito para as outras vias do odor axilar: o corpo entrega uma molécula travada e a microbiota faz a conversão. Muda o precursor, muda a enzima, muda o cheiro resultante, mas a arquitetura é a mesma.

A implicação prática é sempre a mesma também. O cheiro depende de quem mora na sua pele tanto quanto do que a sua glândula produz.

Por que duas pessoas discordam sobre o mesmo cheiro

Este é o ponto mais interessante do assunto, e ele é bem estabelecido.

Existe um receptor olfativo, conhecido como OR7D4, cuja variação genética altera a resposta à androstenona. Dependendo do par de variantes que a pessoa herda, o mesmo estímulo pode ser percebido como muito desagradável e urinoso, como fraco e adocicado, ou não ser percebido de forma alguma.

Isso não é sutileza de laboratório. Em experimentos com voluntários cheirando o composto isolado, as descrições se distribuem em grupos bem separados, e a distribuição acompanha o genótipo do receptor. Uma parte considerável das pessoas é funcionalmente anósmica para esse composto específico, ou seja, tem olfato normal para tudo o mais e simplesmente não registra aquela molécula.

Duas consequências cotidianas nascem disso.

A primeira é que discordâncias sobre odor corporal dentro de uma casa ou de um casal podem ser literais, e não questão de sensibilidade excessiva de alguém. Uma pessoa sente, a outra não sente.

A segunda é sobre o próprio julgamento: quem não detecta androstenona não deve concluir que não emite nada. Emissão e percepção são independentes, e a adaptação olfativa ao próprio cheiro complica ainda mais a autoavaliação.

CompostoNota percebidaOrigem imediataObservação
AndrostenonaUrinosa, pungenteConversão bacteriana de precursor apócrinoPercepção varia muito por genética do receptor
AndrostenolAlmiscarada, amadeiradaRedução da androstenona e vias afinsCostuma ser considerada mais agradável
Ácidos ramificadosSuor rançosoCorte enzimático de conjugado com glutaminaPrincipal componente do odor axilar típico
TioálcooisCebola, alhoLiase bacteriana sobre conjugado de cisteínaLimiar de detecção extremamente baixo
Ácidos curtosAzedo, queijoMetabolismo de aminoácidos do suorPerfil comum em quem transpira muito
Escatol e indolFecal em alta concentraçãoMetabolismo bacteriano de triptofanoEm traços, entra em fragrâncias florais

O caso do porco, e por que ele confunde o debate

Androstenona tem uma história bem documentada fora da espécie humana. Ela é produzida em quantidade pelo porco macho, acumula na gordura e é uma das causas do defeito de sabor conhecido em carne suína. Também é usada na prática de manejo: uma preparação com esse composto ajuda a identificar fêmeas em cio, que assumem uma postura característica ao serem expostas ao odor na presença do macho.

No porco, portanto, existe uma resposta comportamental razoavelmente previsível. É daí que vem a extrapolação comercial para humanos.

O problema é que extrapolação não é evidência. Para chamar um composto de feromônio é preciso demonstrar que ele produz, em membros da mesma espécie, uma resposta específica e reprodutível. Em humanos, os estudos com esses esteroides têm amostras pequenas, desenhos frágeis, resultados que apontam para direções diferentes e histórico ruim de replicação. Revisões críticas do tema concluem que nenhum feromônio humano foi identificado de forma convincente até hoje.

O honesto é dizer o seguinte: esses compostos existem na axila, são cheirados por muitas pessoas e influenciam a percepção de agradável ou desagradável. Isso é diferente de afirmar que eles governam atração ou comportamento. A segunda afirmação não tem apoio bom, e é a que aparece em anúncio.

Erros comuns

Quando procurar médico

Esses dois esteroides são um bom lembrete de que odor não é uma propriedade objetiva do corpo, e sim o encontro entre o que a pele emite e o que o nariz de quem está por perto consegue registrar.

Do lado da emissão, quase tudo depende de glândula e de microbiota, que não obedecem a produto de prateleira. Do lado da difusão, existe uma variável concreta e modesta: a quantidade de água na superfície e o tempo que a pele passa úmida sob roupa fechada. É pouco, mas é real, e é onde um cosmético pode dizer o que faz sem inventar.

Perguntas frequentes

Androstenona é feromônio humano?

Não há evidência boa que sustente isso. Para ser classificado como feromônio, um composto precisa produzir resposta previsível e específica em membros da mesma espécie, e os estudos em humanos com esses esteroides são inconsistentes e difíceis de replicar.

Por que algumas pessoas não sentem esse cheiro?

Porque variantes do gene de um receptor olfativo específico mudam a resposta a esses esteroides. Dependendo do par de variantes herdado, a mesma molécula é percebida como urinosa, como suave e adocicada, ou não é percebida.

Esses esteroides vêm do hormônio masculino?

Eles derivam da mesma matéria-prima esteroide dos andrógenos, mas não são testosterona nem funcionam como hormônio na pele. São produtos de conversão, feitos em boa parte por bactérias da superfície a partir de precursores da secreção apócrina.

Homem tem mais desses compostos que mulher?

Em média se descreve maior quantidade em homens, o que acompanha o volume da secreção apócrina e a atividade androgênica. Ainda assim a variação entre pessoas do mesmo sexo é grande, e não existe fronteira nítida entre os grupos.

Perfume com feromônio funciona?

Não há evidência boa de eficácia. Produtos vendidos como feromônio humano costumam apoiar-se em estudos pequenos, mal controlados e sem replicação. O efeito percebido tende a ser explicado pela fragrância comum e pela expectativa de quem usa.

Antitranspirante remove esses esteroides?

Não age sobre a molécula. Ele reduz a umidade da superfície, o que diminui o meio em que a secreção se espalha e a difusão dos voláteis. É efeito indireto e vale descrever exatamente assim.

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